7. ARTES E ESPETCULOS 17.4.13

1. LIVROS  A PASSEIO PELA HISTRIA
2. CINEMA  LGICA INTERNA
3. EXTRAVIADO ENTRE DOIS MUNDOS
4. TELEVISO  DUROS DE MATAR
5. VEJA RECOMENDA
6. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
7. J.R. GUZZO  EFEITOS COLATERAIS

1. LIVROS  A PASSEIO PELA HISTRIA
Mais interessada em miudezas domsticas do que em temas como a Abolio  assim era a princesa Isabel, de acordo com um novo relato de sua vida ao lado do conde d'Eu
JERNIMO TEIXEIRA

     Em sua inflamada militncia republicana, Rui Barbosa criou eptetos maldosos para o par que deveria ocupar o trono do Imprio do Brasil na sucesso de dom Pedro II: "a princesa anulada e o prncipe invasor". Neto de Lus Felipe, rei francs deposto em 1848, Gasto de Orlans, o conde d'Eu (1842-1922), sempre suscitou desconfiana entre os sditos brasileiros por sua condio estrangeira  da ser chamado, com exagero retrico, de "invasor". Deve-se supor que o conde, como invasor insidioso que era, seria o "anulador" da princesa Isabel (1846-1921). Nesse ponto, porm, a frmula de Rui Barbosa descola-se da realidade psicolgica da personagem: submissa primeiro ao pai e depois ao marido adorado, a figura que a histria consagrou e idealizou como signatria da Lei urea, que deu fim  escravido no pas, era, por personalidade, uma criatura quieta e domstica. O alheamento em relao  poltica, portanto, no era uma anulao, mas antes sua disposio de esprito mais natural. "Aqui nossa pequena vida  bem regular e bem tranquila", escrevia em 1889, s vsperas da queda da monarquia. A vida em comum do conde e da princesa, felizes no casamento e desafortunados na poltica,  reconstituda com graa e detalhe em O Castelo de Papel (Rocco; 320 pginas; 34,50 reais), da historiadora Mary Del Priore. 
     Em obras como O Prncipe Maldito e Condessa do Barral  A Paixo do Imperador, Mary tem colocado uma rigorosa pesquisa de fontes  sobretudo, da correspondncia dos protagonistas  a servio de uma narrativa que, com a fluidez de um bom romance, equilibra a existncia ntima e a relevncia histrica de seus biografados. Seu livro anterior, A Carne e o Sangue, examinava a escandalosa relao de dom Pedro I com a marquesa de Santos. Se ali havia vulgaridade sexual e at violncia domstica, no novo livro imperam a serenidade e a compostura. Citadas ao longo de todo o livro, as cartas trocadas entre o conde francs e sua consorte brasileira confirmam a conhecida mxima de Fernando Pessoa (alis, seu heternimo lvaro de Campos): todas as cartas de amor so ridculas. Isabel mandava beijos em profuso e abusava dos diminutivos  uma das cartas ao marido vai assinada "sua pombinha, sua bonitinha, sua engraadinha". Mas nada h, na correspondncia, que permita espiar dentro da alcova do casal. 
     O matrimnio da princesa de Bragana e do conde da casa de Orlans foi, como era praxe nas casas reais ento, resultado de uma longa negociao. Quando Gasto partiu para o Brasil, seu pai, o duque de Nemours, tinha esperana de que o filho se casasse com Leopoldina, irm mais jovem de Isabel. Uma unio com a princesa que no estava na linha sucessria imediata daria a Gasto mais liberdade para viajar  Europa sempre que lhe aprouvesse. Leopoldina, porm, ficou com Augusto, um primo do conde d'Eu. Gasto e Isabel viajaram ao exterior com relativa frequncia. Muitas vezes o pai imperador pressionava o casal para que retornasse logo ao pas  mas porque ele mesmo desejava passear pelo mundo. Eis a medocre tragdia palaciana do Segundo Imprio: ningum ali tinha muita disposio para as responsabilidades do trono. 
     Catlica devota, filha e esposa amantssima e obediente, Isabel, j casada, ainda pedia ao pai imperador que lhe dirimisse dvidas de uma lio de histria. "Faa o favor de me dizer o que se passou durante a guerra dos holandeses, que no pude lembrar outro dia", escreveu certa vez a dom Pedro II. Seu interesse pela abolio foi tardio, impulsionado antes por um vago sentimento de caridade crist do que por real convico ideolgica. Mary cita cartas em que a futura "Redentora" fala de seus escravos com um descaso senhorial. Dizia Isabel sobre um "domstico mulato": "Outro dia faltou ao servio. Quando quiseram castig-lo, ele se escondeu". O conde d'Eu tinha l seus pendores liberais, mas nunca pde exerc-los, alijado que foi do centro das decises pelo sogro. Fiel a uma noo de honra militar muito prpria dos Orlans, insistiu para lutar na Guerra do Paraguai  mas, quando afinal foi chamado  ao, hesitou em embarcar para Assuno. Apesar de sua inexperincia, acabou fazendo boa figura nos combates de Campo Grande e Peribebu, entre outros. Bem mais tarde, sobretudo nos anos 1970, "revises" esquerdistas da guerra pintariam o conde como um sdico. Dizia-se que ele mandara incendiar um hospital, o que no tem base em nenhum documento histrico. Mas, em Maldita Guerra, uma das obras mais abrangentes e respeitadas sobre a Guerra do Paraguai, o historiador Francisco Doratioto apresenta testemunhos slidos de que o conde ordenou a degola de prisioneiros de guerra em Peribebu  circunstncia que Mary Del Priore omite. 
     O conde d'Eu aboliu a escravido no Paraguai ocupado. J no Brasil, embora tivesse ligaes com abolicionistas  em especial, foi amigo de Andr Rebouas , era adepto do "vamos deixar para depois". Uma vez assinada a Lei urea por sua mulher, o conde teve uma razovel prescincia de que o regime estava condenado. "A Abolio cavou um poo entre a monarquia e as classes que a ajudavam a manter-se", disse. No exlio, na Frana, Isabel e Gasto foram atormentados pela morte de dois dos seus trs filhos. O conde ainda tentou, sem sucesso, recuperar ttulos nobilirquicos franceses para os descendentes. Mas, afinal, cercado de netos, o casal usufruiu da paz domstica que foi sempre sua ambio maior. 


2. CINEMA  LGICA INTERNA
A refilmagem do adorado A Morte do Demnio de Sam Raimi se sustenta por seus prprios mritos.
ISABELA BOSCOV

     Quase toda histria de terror, para acontecer, necessita que algum de seus personagens tome uma deciso perfeitamente estpida: entrar num sto escuro para investigar um rudo estranho, levar para casa um objeto misterioso ou brincar de invocar espritos, por exemplo. Ou ainda cismar de olhar um livro que algum teve o cuidado de envolver em voltas e mais voltas de arame farpado antes de guard-lo no poro bem trancado de uma cabana abandonada no meio da floresta  um poro, alis, decorado com um sortimento de gatos mortos em decomposio, para que no reste dvida sobre os pssimos augrios do local. Em A Morte do Demnio (Evil Dead, Estados Unidos, 2013), que estreia no pas nesta sexta-feira, Eric (Lou Taylor Pucci) no apenas abre o livro encadernado em algo que lembra (e talvez seja) pele humana, como ignora os avisos rabiscados nele para que no se pronuncie nenhuma palavra escrita ali: recita-as todas em alto e bom som. E, claro, chama assim uma entidade malfica que toma residncia no corpo de Mia (Jane Levy). O caso  que Mia est na cabana com Eric, seu irmo e duas outras meninas para largar  fora seu vcio em drogas. Quando ela comea a se comportar de maneira brbara, ningum pensa em possesso: todos atribuem sua irracionalidade  abstinncia, e ficam ainda mais firmes no propsito de no sair de jeito nenhum de seu isolamento. Eric, assim, cometeu a idiotice fatal que  praxe no gnero. O que no significa que o filme tenha de ser to parvo quanto o personagem que o deflagra: sob a direo do uruguaio Fede Alvarez, ao contrrio, A Morte do Demnio  um exemplo de como usar a lgica interna para justificar improbabilidades. , tambm, um modelo de percia narrativa na maneira como adere  tenso incessante sem nunca torn-la frentica. E  um caso de estudo sobre como refazer um dos filmes mais amados da histria recente sem tentar rivalizar com ele nem barate-lo, sustentando-se sobre mritos prprios. 
     O filme refeito aqui, na verdade, so dois: The Evil Dead  A Morre do Demnio, de 1981, e Uma Noite Alucinante, de 1987  ambos basicamente a mesma histria, que Sam Raimi dirigiu primeiro como um terror de fato e depois como um "terrir", um cruzamento de terror com comdia. Ambos so de uma eficcia, uma inventividade e um charme com os quais no h como competir. Ambos tm tambm o mesmo protagonista, Ash, que, interpretado com canastrice inimitvel por Bruce Campbell, mata a irm e corta seu prprio brao com uma serra eltrica na tentativa de derrotar o demnio que o aprisiona numa cabana celebremente minscula por fora e enorme por dentro. No h como reproduzir tal monumento do trash  e o uruguaio Alvarez, sabiamente, sai pela tangente: recria a situao bsica e cita os elementos mais notrios, mas no ressuscita personagens nem tenta fazer de seu filme uma revoluo de gnero como a que Raimi instituiu. Opta, isto sim, por solidez, consistncia, atmosfera e quantidades espantosas de sangue. 
     O curioso  que Alvarez chegou  direo de um longa americano pelo mesmo caminho que outro estreante tambm em cartaz no momento: assim como o argentino Andrs Muschietti de Mama, ele foi descoberto por um grande nome do terror/fantasia (Guillermo del Toro, no caso de Muschietti) graas a um curta-metragem postado na internet. O Mama original  uma brincadeira esperta que, esticada em filme, resultou tola. J Ataque de Pnico!, de Alvarez,  (literalmente) uma pequena obra-prima sobre uma invaso de robs gigantes a Montevidu. Sam Raimi diz que, ao ver o curta, reconheceu no uruguaio um "esprito irmo". Que Alvarez, ento, seja sempre iluminado pelo Raimi bom de Evil Dead e Homem-Aranha, e nunca se deixe possuir pelo Raimi mau de Oz: Mgico e Poderoso. Para o horror comear, basta uma deciso estpida.


3. EXTRAVIADO ENTRE DOIS MUNDOS
Oblivion tem qualidades slidas  e defeitos idem.

     O americano Joseph Kosinski, que estreou h trs anos com Tron  O Legado e agora assina Oblivion (Estados Unidos, 2013), j em cartaz, pode ainda se tornar um cineasta de expresso. O potencial para tanto  evidente: nesta fico cientfica que Kosinski adaptou de uma graphic novel de sua prpria autoria, a Terra ps-apocalptica de 2077 que ele evoca na tela  o maior e o mais impressionante personagem do filme  um planeta que parece devolvido s suas origens csmicas na sua vastido, na imagem intrigante da Lua despedaada espalhando-se pelo cu, nos vestgios melanclicos da civilizao e tambm na profunda solido. Alm de Jack (Tom Cruise) e Vika (Andrea Riseborough), incumbidos de monitorar as torres de captao da gua que vai abastecer a humanidade agora alojada numa das luas de Saturno, permanecem na superfcie apenas alguns remanescentes da tragdia: invasores que perderam a guerra com os seres humanos, mas conseguiram inviabilizar a vida destes ali. De sua torre muito acima do solo, numa casa de minimalismo impessoal, Vika conta os dias para deixar a Terra; Jack, secretamente, no quer ir embora. Em seus sonhos, rev o mundo que nunca conheceu e sofre por estar separado de uma mulher (Olga Kurylenko) que no sabe quem . Em segredo, tambm, s vezes se refugia num osis que restou da velha Terra: uma cabana num bosque,  beira de um lago, onde guarda objetos recolhidos em suas expedies. 
     A premissa  tima; a concepo visual, excelente. E os dois filmes que Kosinski homenageia  O Planeta dos Macacos e 2001  Uma Odisseia no Espao, ambos marcos da fico lanados em 1968  no poderiam ser mais pertinentes. E, no  entanto, as qualidades de Oblivion no contrabalanam seus defeitos. Primeiro, faltam-lhe tanto a implacabilidade de Stanley Kubrick quanto o desespero do clssico de Franklin J. Schaffner. Depois, h os clichs cansativos que desviam a trama do seu rumo promissor  a histria de amor que  o objetivo final do filme e o indefectvel grupo de resistentes com uma revelao devastadora a fazer. Cruise, sempre vido por ateno e ativo demais, parece impaciente com o ritmo do filme e compete com ele. Bem mais grave, porm,  que o prprio diretor no sabe ainda quem quer ser: se um pessimista ou um sentimental, se um desbravador ou um imitador, se um funcionrio a servio de estdios ou um cineasta com voz prpria. Espera-se que ele se decida logo por uma trincheira. Ou corre o risco de ficar perdido em um oblvio de sua prpria criao, sempre acenando com uma promessa que no se realiza. 
ISABELA BOSCOV


4. TELEVISO  DUROS DE MATAR
A reinveno surpreendente de dois assassinos clebres do cinema reafirma o vigor criativo das sries americanas.
MARCELO MARTHE

     Portador de uma forma de autismo que o torna capaz de compreender e incorporar as motivaes dos psicopatas, o psiquiatra Will Graham (Hugh Dancy) auxilia o FBI na caada a um assassino em srie que se delicia comendo o ligado de garotinhas. Mas o dom de Graham cobra-lhe uma fatura alta. Diante de cada cena de crime, ele  de tal maneira levado pelos desvos mentais do assassino que sente o mesmo prazer de que este  tomado ao matar. Como consequncia,  acometido de pesadelos e lanado num estado prximo da catatonia. O FBI convoca ento outro bambamb da psiquiatria para monitorar o especialista perturbado. O que no ajuda muito: Graham volta a surtar quando constata que um crime de padro semelhante  mas em que a vtima teve os pulmes extirpados  no foi cometido pelo assassino que ele busca, mas por um imitador insolente. O fato de, na cena seguinte, o tutor de Graham surgir flambando nacos de pulmo numa frigideira e devorando-os enquanto sorve uma taa de vinho no deixa dvida de que, ao ressuscitar numa nova srie de TV, o canibal Hannibal Lecter exibe a mesma monstruosidade refinada que consagrou o personagem e seu intrprete, o britnico Anthony Hopkins, em O Silncio dos Inocentes. Os elementos bsicos do filme de 1991 e das trs produes nas quais ele se desdobrou no cinema continuam reconhecveis em Hannibal, que estreou nos Estados Unidos na semana retrasada e chega nesta tera-feira ao canal AXN brasileiro  e isso s torna mais notvel o trabalho do roteirista Bryan Fuller (das finadas sries Heroes e Pushing Daisies). Embora sua fonte tambm sejam os livros do americano Thomas Harris, ele arranca dela uma iguaria surpreendente. Hannibal ilustra o novo campo de explorao da TV americana: o resgate de psicopatas de filmes clebres que degringolaram em franquias sofrveis  s que dentro do padro de excelncia das sries atuais. 
     A tendncia foi inaugurada por uma srie que traz de volta  vida o assassino com fixao pela me encarnado por Anthony Perkins em Psicose, a obra-prima do suspense dirigida por Alfred Hitchcock em 1960. Bates Motel  que dever estrear em breve no Brasil, pelo Universal Channel  flagra Norman Bates (Freddie Highmore) na adolescncia, quando a relao complicada do rapaz com a me, Norma (Vera Farmiga), vai delineando a (de)formao que mais tarde desembocaria no personagem de Hitchcock. As duas sries, alis, valem-se de idntico recurso dramtico: ao mesmo tempo em que permitem vislumbrar os assassinos por uma perspectiva nova, manipulam sem pudor o fato de eles serem figuras bem conhecidas do pblico  o que estabelece certa cumplicidade voyeurstica com o espectador. Retratado na meia-idade, antes de ser desmascarado e preso, Lecter no desperta suspeitas  sua volta: s a audincia conhece sua real natureza e pesca os lances sutis que o denunciam. 
     O expediente  potencializado pela escolha do dinamarqus Mads Mikkelsen  o ator extraordinrio do filme A Caa  para o papel que Hopkins defendeu com brilho no filme original, mas depois levou para um registro em tudo canastro. Mikkelsen possui um rosto to anguloso e expressivo que basta um movimento mnimo no canto dos lbios para trair frieza e deleite sdico. O ingls Highmore, protagonista de Bates Motel, tambm no faz feio. No seu jeito de ser, a inadequao tpica dos adolescentes se mescla a indcios de um transtorno mais srio. Enquanto sua personalidade no pende em definitivo para o segundo lado, ele tenta, em vo, driblar a superproteo sufocante a que a me o submete. Os momentos em que tem a chance de se socializar com os jovens de sua idade acabam, contudo, sendo desastrosos. Uma curiosidade: embora se resgatem tal e qual em Psicose o motel e a manso onde Bates mantinha a me mumificada, a srie se passa nos dias de hoje. Bates e os colegas ouvem msica no iPhone e trocam torpedos. 
     As duas sries no esto reinventando a roda, claro, ao reciclar histrias de sucesso sob o prisma do passado de seus protagonistas. O cinema fez isso mil vezes. No caso de Lecter, dois filmes da franquia se debruavam sobre as origens do personagem. O que a TV americana oferece de novo  um banho providencial de roteiro e direo. A recm-lanada Hannibal mal comeou a enfrentar a dura luta pela sobrevivncia na TV aberta americana. Triunfe ou no no mata-mata, contudo, j demonstrou que os roteiristas da TV conseguem injetar frescor at num argumento em tese esgotado. No caso de Bates Motel, a receita acaba de ser aprovada: aps quatro semanas no ar, ela j tem sua segunda temporada anunciada pelo canal A&E. 
     A srie ilustra como um somatrio de fatores  aleatrios ou no  pode exacerbar uma doena mental. Norma cria o filho com uma possessividade que tem suas razes de ser  por exemplo, sua relao tambm problemtica com um filho mais velho e delinquente. Alm de estarem mergulhados na neurose familiar, os Bates se envolvem nos mistrios de um lugarejo que lembra a cidade que d nome a Twin Peaks, sucesso do cineasta David Lynch na TV nos anos 90. Como se prova aqui, tudo se recria  inclusive monstros surrados. 


5. VEJA RECOMENDA

DISCO
WITHOUT A NET, WAYNE SHORTER QUARTET (EMI)
 O saxofonista americano Wayne Shorter, 79, pertence ao time dos inovadores da linguagem do jazz. Ele integrou o soberbo quinteto do trompetista Miles Davis nos anos 60 e foi um dos criadores do grupo de jazz rock Weather Report. Em 2000, Shorter montou um quarteto ao lado de trs outros virtuoses  o pianista Danilo Prez, o contrabaixista John Pattitucci e o baterista Brian Blade. Without a Net  o terceiro disco dessa formao e, como os outros,  ao vivo: foi gravado em 2001, durante a turn europeia do quarteto. Shorter  um bandleader generoso, que d espao para o improviso de seus comandados. Estes, por sua vez, no desperdiam a chance. Blade soca seu kit em Myrhh, Prez recria o tema do filme Voando para o Rio e o trio se une num exerccio de improvisao em Starry Night. J Shorter cita Manteca, do trompetista Dizzy Gillespie, na faixa S.S. Golden Mean. H tambm duas recriaes de composies do saxofonista. Orbits  de Miles Smiles (1967), de Miles Davis, e Plaza Real foi gravada em Procession, disco de 1983 do Weather Report. Ambas esto bem diferentes: foram desconstrudas e reconstrudas at que adquirissem a personalidade do quarteto de Shorter.

DVD
THE EUROPEAN CONCERT: BRAHMS/ HAYDN/BEETHOVEN, GUSTAVO DUDAMEL, GAUTIER CAPUON E FILARMNICA DE BERLIM (DEUTSCHE GRAMMOPHON) 
 O venezuelano Gustavo Dudamel tinha 23 anos quando venceu o concurso de regncia Gustav Mahler, em 2004, e foi apontado como a salvao do mundo erudito. Mais do que um maestro carismtico, Dudamel era fruto do El Sistema, programa de integrao social pela msica surgido na Venezuela em 1975. Hoje, aos 32 anos, ele mostra que tem outras qualidades alm de inflamar as orquestras com seus gestos largos e o sacolejo de sua cabeleira. Neste vdeo, o venezuelano comanda a Filarmnica de Berlim num programa dedicado a trs pilares da tradio musical germnica. Sua leitura para a Quinta Sinfonia de Beethoven  um achado: ele opta por uma formao enxuta (ao contrrio da superpopulao de msicos dos tempos em que a orquestra era comandada pelo lendrio Herbert von Karajan) e faz uma verso, digamos, camerstica. O Concerto para Violoncelo, de Haydn,  outro grande momento  principalmente pela tima performance do violoncelista francs Gautier Capuon.

LIVROS
O PASSADO  UM LUGAR, DE TANA FRENCH (TRADUO DE WALDA BARCELLOS; Rocco; 400 PGINAS; 49,50 REAIS) 
 Em 2007, em seu livro de estreia, O Bosque da Memria, a irlandesa Tana French conquistou o maior prmio literrio de seu pas, o Edgard, com a sombria histria de um crime do passado  espera de uma soluo. Agora ela volta ao tema, com um adendo: o detetive Frank Mackey, que investiga o misterioso sumio da jovem Rosie Daly, ocorrido 22 anos antes, era o namorado da vtima. Adolescentes revoltados com a misria da vizinhana onde cresceram, em Dublin, o casal planejava viver em Londres  mas ela no aparece na noite da fuga. Acreditando ter sido trado, Mackey parte sozinho e decide romper todos os laos que o ligam a uma existncia de pobreza e maus-tratos. Quando a mala de Rosie  encontrada por acaso, ele tem de fazer um longo caminho de volta rumo a sonhos desfeitos, ressentimentos e uma tragdia familiar. A autora, que tambm  atriz, constri uma galeria de personagens intensos em cenas de alta voltagem dramtica que impulsionam a leitura para alm da mera curiosidade pela revelao final do mistrio. 

A INFNCIA DE JESUS, DE J.M. COETZEE (TRADUO DE JOS RUBENS SIQUEIRA; COMPANHIA DAS LETRAS; 304 PGINAS; 44 REAIS)
 O ttulo sugere mais uma reviso do Evangelho em forma de romance, na linha de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, do portugus Jos Saramago, ou de O Evangelho Segundo o Filho, do americano Norman Mailer. Mas no, no  nada do gnero: embora pontue a narrativa com aluses bblicas, o sul-africano J.M. Coetzee, Nobel de 2003, afasta-se radicalmente dos textos sagrados. Talvez se possa imaginar que esta  a vida de Jesus tal qual ela seria encenada por Samuel Beckett: uma histria reduzida a seus elementos mais abstratos e indecifrveis. Simn, um homem idoso, chega a Novilla, um pas onde todos esquecem a vida passada e falam uma nova lngua, uma verso dura do espanhol. Ele chega acompanhado de David, um inteligente mas estranho menino que encontrou na viagem at l. Na obra do autor, A Infncia de Jesus est prximo do alegrico  Espera dos Brbaros, e distante de Desonra e Vero, trabalhos enraizados na realidade objetiva da frica do Sul. , por isso mesmo, um livro mais difcil, de menor fora emptica  mas capaz de assombrar o leitor com seus incmodos enigmas.

TELEVISO
DEFIANCE (ESTREIA NESTA TERA-FEIRA, s 20H, NO SYFY)
 Num futuro no muito distante, o mercenrio Jeb v um elemento familiar na paisagem desolada onde um novo povoado se ergue: o arco monumental  o nico testemunho de que Deriance, o lugar em questo, ocupa o ponto em que um dia existiu a cidade de Saint Louis. Desde que a Terra foi lanada no caos pela invaso de hordas aliengenas, humanos e ETs de sete raas distintas convivem ali  em harmonia precria. Jeb e sua filha adotiva, que descende da mais hostil dessas raas invasoras, chegam  cidade no momento em que outra linhagem enfrenta um cl humano  e s vsperas do ataque de um exrcito de robs. A saga de Defiance desenrola-se em duas frentes ao mesmo tempo: alm da srie com estreia mundial nesta semana, nasce como videogame (as tramas so autnomas, mas devem se entrecruzar). Trata-se de um programa bem nerd: as fantasias engraadas dos aliengenas, com seus peruces platinados e lentes de contato inacreditveis, do a sensao de que se est numa conveno de fs de fico cientfica. Mas a aposta nos conflitos humanos e na explorao das dores da convivncia lhe confere tutano dramtico. 


6. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. Cinquenta Tons de Cinza  E.L. James. INTRNSECA 
2. O Lado Bom da Vida  Matthew Quick. INTRNSECA
3. Cinquenta Tons de Liberdade  E.L. James. INTRNSECA 
4. Cinquenta Tons Mais Escuros  E.L. James. INTRNSECA
5. A Culpa  das Estrelas  John Green. INTRNSECA
6. Toda Poesia  Paulo Leminski. COMPANHIA DAS LETRAS 
7. Morte Sbita  J. K. Rowling. NOVA FRONTEIRA 
8. Garota Exemplar  Gillian Flynn. INTRNSECA
9. Toda Sua  Sylvia Day. PARALELA 
10.   Profundamente Sua  Sylvia Day. PARALELA 

NO FICO
1. Sonho Grande  Cristiane Correa. PRIMWIRA PESSOA
2. Subliminar  Como o Inconsciente Influencia Nossas Vidas  Leonardo Mlodinow. ZAHAR 
3. Casagrande e Seus Demnios  Casagrande e Gilvan Ribeiro. GLOBO
4. Lincoln  Doris Kearns Goodwin. RECORD 
5. O Dirio de Hekga  Helga Weiss. INTRNSECA
6. O Livro da Psicologia.  Nigel Benson. GLOBO 
7. Danuza & Sua Viso de Mundo sem Juzo  Danuza Leo. AGIR 
8. O Livro de Filosofia  Vrios. GLOBO 
9. Nada a Perder  Edir Macedo. PLANETA 
10. Giane  Vida, Arte e Luta  Guilherme Fiuza. PRIMEIRA PESSOA 

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Eu No Consigo Emagrecer  Pierre Dukan. BEST SELLER
2. Casamento Blindado  Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL 
3. S o Amor Consegue  Zibia Gasparetto. VIDA & CONSCINCIA 
4. Uma Prova do Cu  Dr. Eben Alexander III. SEXTANTE 
5. O Monge e o Executivo  James Hunter. SEXTANTE
6. Desperte o Milionrio que H em Voc  Carlos Wizard Martins. GENTE 
7. Nietzsche para Estressados  Allan Percy. SEXTANTE
8. No se Desespere! Mario Sergio Cortella. VOZES
9. As 25 Leis Bblicas do Sucesso  William Douglas e Rubens Teixeira. SEXTANTE 
10. O Poder do Hbito  Charles Duhigg. OBJETIVA


7. J.R. GUZZO  EFEITOS COLATERAIS
     O governo brasileiro viciou-se em confundir estatsticas com realidades. Est escrito em algum papel oficial? Ento  verdade. Como fomos todos informados pela presidente Dilma Rousseff, no h mais miserveis no Brasil desde o dia 31 de maro, quando foi riscado do cadastro federal o nome do ltimo cidado brasileiro com renda inferior a 70 reais por ms. A partir da, quem ganha 71 mensais deixou de ser miservel, pois para a cincia estatstica a misria acaba naqueles 70 reaizinhos  ou cerca de 1,25 dlar por dia, pela mdia dos critrios internacionais. Da para a frente o sujeito  promovido a pobre e deixa de incomodar tanto. "O cadastro foi zerado", anunciou Dilma. Concluso: como no existem mais nomes no cadastro, no existem mais miserveis no Brasil. Ah, sim, ainda h um probleminha com gente que ganha menos de 70 reais por ms e que no estava inscrita na lista oficial;  mera questo de tempo at o governo encontrar todo mundo, dar um dinheirinho a mais para eles e acabar no apenas com a "misria cadastrada", como falam os tcnicos do Palcio do Planalto, mas com o problema inteiro.  
     Nada disso faz nexo no mundo do bom-senso, mas o governo tornou-se dependente de um outro vcio  massagear nmeros aqui e ali e fazer uso deles para tratar como retardado mental todo brasileiro que foi  escola, prestou um pouco de ateno s aulas e acabou aprendendo alguma coisa. O problema de meter-se por essa trilha  que, com frequncia, os especialistas em fazer mgicas aritmticas tm de experimentar o prprio veneno. Acaba de acontecer, mais uma vez, com as ltimas cifras da ONU sobre o ndice de Desenvolvimento Humano em 187 pases  uma medida que informa o nvel de bem-estar da populao, e no da "economia", em termos de vida saudvel, acesso ao conhecimento e padro de vida decente, traduzido em dinheiro no bolso do povo. O Brasil pegou o 85 lugar em 2013, dezesseis postos abaixo do Cazaquisto e outras potncias do mesmo quilate. No  um desastre.  apenas aquilo que realmente somos  a mediocridade em estado puro. S na Amrica Latina, ficamos atrs de Argentina, Chile, Uruguai, Cuba, Panam, Mxico, Venezuela e Peru, com a Colmbia prometendo passar  frente j no prximo levantamento. Sobra o qu, aqui em volta? S os casos de subdesenvolvimento que j esto num leito de UTI. 
     A coisa no para a. J que o negcio  ficar refogando nmeros, como a presidente Dilma tanto gosta, por que no servir a salada inteira? Em 1980, mais de vinte anos antes de o ex-presidente Lula decidir que o Brasil tinha sido inventado por ele, o IDH brasileiro era de 522, numa escala que comea no zero e chega ao mximo de 1000; subiu sem parar nesse tempo todo, chegando a quase 700, ou perto de 35% a mais, no Ano I da Nova Histria do Brasil  2003 , quando Lula comeou sua primeira Presidncia. Nestes dez anos de Lula, Dilma e PT, o ndice foi para os 730 onde est hoje. Mais: durante os dois anos do governo Dilma, o IDH brasileiro ficou perto do nvel de presso zero por zero, com crescimento praticamente nulo. O que toda essa tabuada est dizendo, no mundo das coisas reais,  o contrrio do que diz o mundo da propaganda oficial: com a sexta ou stima maior economia do mundo em volume, o Brasil simplesmente no consegue repassar o bem-estar dessa grandeza, nem de longe, para os brasileiros que a constroem. 
     O governo, assim que recebeu os ltimos nmeros, entrou no seu modo habitual de indignao automtica: a ONU est errada, as cifras so injustas etc. Quer que a populao acredite na demncia segundo a qual um cidado que ganha 71 reais por ms no  mais miservel; ao mesmo tempo, no quer que acredite nos nmeros da ONU. Mais que tudo, ignora o fato de que "a revoluo na renda" registrada nos governos petistas, e patenteada como inveno pessoal e exclusiva de Lula,  uma mentira: o mundo inteiro, mesmo nos casos mais desesperados da frica, viveu uma rpida e indita reduo da pobreza durante os dez anos de governo lulista. De 2000 para c, 70 milhes de pessoas saem da misria a cada ano pelo mundo afora. Em apenas seis anos, de 2005 a 2011, a pobreza mundial foi reduzida em meio bilho de seres humanos. Desde 2003, os pases pobres vm aumentando em 5% ao ano, em mdia, a sua renda per capita. De onde Lula e Dilma foram tirar a lenda segundo a qual fizeram o que ningum jamais havia feito? 
     V com calma ao mexer em estatsticas, presidente.  um produto que pode ter efeitos colaterais indesejveis. 


